Rótulos

anjo3c

Nos últimos dias passei por uma maratona de encontros, almoços, jantares e afins. Foram muitas conversas e reflexões. Algumas delas me trouxeram a triste conclusão de que o ser humano ainda usa óculos com um grau enorme de julgamento.

O que isso implica na arte? Rótulos, rótulos e mais rótulos. Com frequência me perguntam qual a minha escola de pintura ou qual o conceito por trás do trabalho. A primeira coisa que me ocorre é tentar relacionar o meu trabalho a movimentos de arte; depois percebo o quanto isso é limitador. No processo criativo estou deixando fluir uma produção altamente intuitiva que se perde sempre que a mente entra no meio e começa a julgar se isso ou aquilo está adequado. Deixo os rótulos para serem colocados pelos críticos de arte que virão depois que eu me for. Não desmereço a importância dos grandes movimentos de arte mas acredito que, especialmente nos dias de hoje, isso seja limitador.

Para o mercado de arte eu cometi suicídio quando comecei a fazer trabalhos decorativos, pintar paredes e expor em restaurantes ou locais menos artísticos e não conceituados. Sinceramente, acho o mercado de arte triste. Uma das áreas que tem o maior potencial em abrir a mente, arrancar os rótulos, ser livre… se mostra incrivelmente quadrada. Tenho um currículo bom, prêmios, publicações e exposições. Mas de que isso serve? Bahh.. nada. Amo pintar, não conseguiria passar muito tempo longe da arte e hoje alcancei a liberdade de expressar o que sinto que tenho que expressar. Isso me faz feliz e a minha maior satisfação é compartilhar essa felicidade. Neste momento tenho buscado oferecer um trabalho que é reflexo da minha busca espiritual, da conexão que sinto com seres sagrados, multidimensionais, e especialmente livres de amarras mundanas.

No que isso reflete espiritualmente? No tempo que fui residente no templo budista ouvi ensinamentos muito importantes para essa minha busca. Um dos ensinamentos que mais me marcou foi sobre rótulos. Não foi essa a palavra usada no ensinamento, mas acho que a colocação aqui está adequada. Na meditação uma das coisas mais difíceis é deixar a mente livre de pensamentos. O ser humano tem a necessidade de catalogar, dar nomes, rotular. Um exemplo que minha Lama amada deu foi sobre uma cadeira despedaçada. Por um milésimo de segundos, a madeira deixa de ser “cadeira” (momento em que a mente observa seu estado natural) mas rapidamente a madeira se torna “farpas”. É exatamente essa necessidade em rotular que limita nossa mente, que cobre a realidade com véus e mais véus. Você pede para 20 pessoas descreverem a mesma cena e cada uma delas te dará uma leitura diferente. A cena nunca deixou de ser o que ela é, mas a leitura do homem sobre o que acontece é que muda. A nossa leitura é limitada e acredito que quanto menos rótulos usarmos, mais próximos estaremos de nos encontrarmos com a experiência real de Ser o que realmente É.

 

Deixo vocês com Gandhi:

A prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão. É uma questão de consciência.

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