Eu vejo você (só que não)

Sempre lembro dessa frase no filme Avatar e isso me faz refletir sobre o quanto estamos distantes disso na nossa sociedade.

Há alguns anos me dei conta dos monólogos coletivos, disfarçados de conversas. Você se senta numa mesa e percebe que ninguém entende o que o outro está falando e o mais triste é que essa falta de leitura é pelo simples fato de ninguém prestar atenção no outro. A cada respiro, entra outro interlocutor interrompendo uma história não concluída, para engatar um conto pessoal que por sua vez é interrompido por outra pessoa e assim por diante. Algumas vezes alguém um pouco mais perceptivo me diz “nossa, você está tão quieta, não falou nada.” e com certo desânimo me contento em sorrir e complementar “né?”.

É fato que desisti de encontros coletivos porque me sinto num zoológico, mas adoro encontros a dois. São momentos onde conseguimos elaborar um diálogo efetivamente, apesar de terem pessoas que ainda assim estão presentes apenas em forma física, prestando mais atenção no celular, na mesa ao lado e esperando a brecha no seu respiro para poder contar algo de si mesmo. Semana passada saí para jantar com uma amiga, ela me confessou com certa dor que seus amigos não sabem dar presente exatamente porque não prestam atenção. Ele observa as pessoas, faz anotações mentais sobre o que seus amigos gostam e quando tem uma oportunidade, dá um presente que seja realmente algo apreciado. Infelizmente, isso é raro.

Percebo que a cada dia isso se torna pior. Eu uso muito comunicação virtual. Quando recebo um recado, faço questão de responder cada ítem que a pessoa colocou. Ainda releio para ter certeza que não comi bola e ignorei algum comentário. Tenho amigos muito bons nisso, que prestam atenção e também respondem a cada colocação.. mas novamente, são poucos. As vezes insisto, continuo me esforçando em fazer diálogos, mas vejo que muita gente nem lê o que você escreveu. As vezes faço experimentos, cutuco, explico que não estou recebendo feedback. Algumas pessoas bonitinhamente se esforçam, mas no geral, realmente não estão muito preocupadas. Na maioria das vezes, não percebem o quanto estão focadas no próprio umbigo e quanto estão perdendo de experimentar o mundo.

Faço um convite a todos que queiram sair dessa nebulosa bolha pessoal, passe um dia sem falar sobre si próprio a ninguém e apenas observe o mundo a sua volta. Talvez você perceba uma flor nascendo em pleno asfalto, talvez você perceba que o faxineiro tem um sorriso muito simpático, talvez você ouça um passarinho no meio das buzinas. Quem sabe assim, com treino, um dia voltemos a ouvir os anjos.

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